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O dia do mergulho no inferno da ditadura

Por Auris Sousa | 24 nov 2015

Todos temos um dia inesquecível, do qual nos recordamos em detalhes. O meu foi há 46 anos, 21 de novembro de 1969. Há um ano e meio vivia na clandestinidade, desde a Greve de Osasco. Usava nome e documentos falsos e me disfarçava, para tentar escapar da implacável perseguição e das fotografias estampadas nos cartazes de “procurados”.

Às 21 horas daquele dia, fui mergulhado num inferno que duraria quatro anos. Fui preso no bairro do Lins de Vasconcelos, Rio de Janeiro, capital do então Estado da Guanabara e conheci por dentro os porões de um regime que havia suprimido o regime da lei, o habeas-corpus, a liberdade de imprensa, o direito de ir e vir, de reivindicar melhorias de vida ou simplesmente sonhar.

Comigo foram presos dois quinto-anistas de Medicina, Chael Charles Schereier e Maria Auxiliadora Lara Barcelos, companheiros de VAR-Palmares. Cerca de 20 horas depois, Chael estava morto, com o coração moído e o estômago estraçalhado a pancadas. Maria Auxiliadora, submetida a todos os tipos de sevícias, enlouqueceria. Para aqueles que não sabem: a ditadura fazia também torturas sexuais; empregava estupradores e tarados como agentes da ordem. Em 1976, poria fim a seu suplício, atirando-se à frente do metrô em Berlim, Alemanha Ocidental.

No ventre do inferno testemunhei o que é uma ditadura: mortes na tortura, execuções sumárias e desaparecimentos de pessoas, inclusive inocentes, ou seja, pessoas sem militância ou presas ao acaso. Porque ditadura é isso: guerra indiscriminada do Estado armado contra a sociedade pacífica. Ou o inferno vivo.

Artigo em homenagem a todos os “idiotas” – na descrição de Aristóteles, aqueles apolíticos que só se preocupam com os próprios umbigos – que vão à avenida Paulista ou pregam em faculdades de quinta divisão a volta da ditadura.

Antonio Roberto Espinosa
é professor da UFRSP. Foi metalúrgico até o final de 1966,
trabalhando na Cobrasma, e um dos líderes da Greve de 1968

Jornal Visão Trabalhista EDIÇÃO #03